Não somos uma pomba!
Eu não sou uma pomba. Uma maldita pomba.
Pobre pomba.
Maldita não é a pomba.
Talvez nós sejamos os malditos.
De uma coisa estou certa: eu não sou uma pomba.
Fui até varanda. Precisava de uma. Precisava observar a maldita pomba, deter cada detalhe, cada diferença entre Ela e Eu. E ter certeza de que eu não era uma pomba.
Haviam muitas pombas todos os dias no meu e nos prédios ao lado. Em todo lugar. Nas estátuas, nas colunas, grades.
Como uma doença infecciosa que se espalha rapidamente. Isso mesmo; a maldita era uma doença.
Sim contagiosa. Comiam tudo que conseguiam enxergar. Todo o resto do homem. Não. Todo o resto do lixo do homem.
Comiam o resto de tudo aquilo que o homem não queria. Resto. Restos.
Uma pousou no parapeito e pude ver: asquerosa, curiosa e faminta, a pomba me olhava. Sem engano me olhava sim.
Desceu até o chão, achei que ia embora quando bateu as asas, mas caminhou até mim parecendo um pinguim. Fiquei parada, nesse momento revolvia em mim sensações que depois relembrando o que acontecera não pude definir: angústia, raiva, dor, nojo, não sei dizer.
Ela parou de andar, soltei o ar que tinha prendido, fiquei tonta, tinha segurado por pouco tempo, mas fora o suficiente para ver o mundo rodando como numa roda gigante.
Ainda tive força para gritar: Eu não sou voce! Não quero suas migalhas fartas, espalhadas, sólidas e estáticas, tão frias e mudas, tão desnudas do que possa sentir. Migalhas, migalha. São muitas pro meu meu pouco e poucas pro meu corpo.
Voou. As vezes é necessário. Tenho voado sempre. Nunca apareço. Nem resolvo. Não é necessário fazer conjunturas.
Deixar-se repetir? Balela! Deixar-se repetir o engano? A frustração?
Está certo. Não me esquecerei de nunhum decassílabo. Mas não vou repetir as migalhas. Qualquer que seja.
Por que me recordo bem dos detalhes, das diferenças.
Primeiro não nos reconhecemos mais.
Depois percebemos que nos tornamos pomba. Em seguida nos deixam comer os seus restos. As migalhas.
Não há nada tão simbólico, tão significativo. Mas, fazemos escolhas. O tempo todo. O tempo todo.
Mas afinal, o que é o tempo para uma pomba maldita?
Somos grandes construtores.Construimos muitas coisas. Boas e muito ruins:
o concreto, as armas, os eletrodomésticos, a internet, a guerra, o amor, a roda, a guerra, de novo, e de novo.
E tudo o que fazemos não significa nada perto da grandiosidade do mundo, tão independente de nós. Mas ainda assim precisamos fazer. Façamos. Não como uma pomba. Não com migalhas, mas façamos.
Assassinemos as migalhas.
Cléo Dais
Um comentário:
.
Matemos as migalhas
Não deixemos que nos consumam
tornemos grandes
Postar um comentário